Primeira sexóloga libanesa educa a sociedade


A primeira sexóloga do Líbano, Sandrine Atallah, é formada em Medicina pela Universidade São José, e com especialização em Sexologia e Hipnose na França. Mesmo sabendo que falar sobre sexo no Líbano é um tabu, e não sendo levada a sério por amigos e familiares, ela decidiu seguir o incentivo de sua mãe e retornou ao seu país natal em 2007, com o objetivo de difundir a saúde sexual como uma profissão, uma especialização inexistente no Líbano. 

 A Dra Atallah explica que a saúde sexual é um estado de integração e complementaridade entre o orgânico, psicológico, mental, e fatores sociais de sexo. Um psicoterapeuta, por vezes, desempenha o papel de um sexólogo, que em outras vezes, é exercido por um ginecologista, que acaba cometendo pequenos erros com os pacientes. Daí a importância, e a necessidade, de se fazer palestras sobre saúde sexual, com a participação de ginecologistas, para que eles possam conhecer essa especialização, que até então, não existia no Líbano, e que ela agora exerce.   

Após sua participação no programa “Lezim Taarif” da LBC, em 2010, sua clínica passou por uma drástica transformação, onde inicialmente, seus pacientes resumiam-se a casais com uma vida sexual morna e homens com problemas de ejaculação precoce. Hoje, milhares de pessoas compreendem a importância da saúde sexual, e inúmeros pacientes, de todas as faixas etárias, e com diferentes problemas sexuais, inclusive gays e lésbicas, a procuram, o que alterou drasticamente a natureza de suas consultas sexuais.  

Seus pacientes são predominantemente do sexo masculino, visto que os homens consideram suas vidas sexuais, como prioridade. As mulheres, que sentem dores durante as relações sexuais, ainda sim conseguem conduzi-las até o fim, e recorrem ao aconselhamento apenas quando perdem o apetite sexual. Elas ainda acreditam que o fracasso de suas vidas sexuais com seus maridos, é sinônimo de fracasso conjugal, e que o divórcio seja a solução. 

Raramente as esposas pedem aos maridos para se consultarem, e muitas acreditam que é um direito deles, atingir o orgasmo nas relações sexuais, sem avaliar que, quando fazemos sexo para nós mesmos, para a nossa felicidade, a nossa vida sexual melhora. Não existe o egoísmo natural em dar-se também prazer, e a relações são feitas apenas pela obrigação de satisfazer o parceiro; o que é um erro, consequência da cultura sexual imposta pela sociedade.

 A Dra Atallah explica que a hipnose, na sexologia, tem o intuito de auxiliar os pacientes a relaxarem e enfrentarem seus medos relacionados à suas vidas sexuais, e encorajá-los a procurar um especialista em saúde sexual para questioná-lo abertamente. 

Ela explica ainda, que o sexo é parte de nossas vidas e as barreiras devem ser derrubadas, para assim se obter um melhor conhecimento sexual, mergulhar em seu amplo mundo, para então melhorar também o seu conhecimento e prática. A sexologia é uma ciência, por trás de todos os aspectos psicológicos, fisiológicos e emocionais da sexualidade. Ela diz que no Líbano, a sexualidade é citada apenas no contexto da psicanálise. 

Alguém com disfunção erétil, por exemplo, tem pouco acesso à compreensão do aspecto fisiológico do seu problema, e a hipnose é um tipo de psicoterapia, que vai passar por uma alteração do estado mental, para tratar vários medos, fobias, problemas de ansiedade, sendo assim uma ferramenta, a ser usada na sexologia; mas ela ressalta que a hipnose não funciona sem uma terapia mais global.

Quando comenta que é sexóloga no Líbano, as pessoas tendem a rir, outros questionam o que significa ser um sexólogo, e por que as pessoas precisam consultar um. Mas depois das risadas vem o choque, e ela se depara com 3 tipos de pessoas, que perguntam: "Você, realmente tem pacientes? Quem realmente você consulta?". Diz ainda, que há também, os que estão realmente interessados, que sabem que é uma especialização inexistente, e carente no país. E por fim, tem os que dizem: “Oh, isso é ótimo! Eu tenho um amigo, ou um primo, ou um amigo de um amigo, que possa estar interessado".

A Sexóloga afirma que não tem muitos pacientes do Golfo, a maioria é do Líbano, da Síria e da Jordânia, mas que dentro do país, ela encontra de tudo um pouco: Do afrancesado de Achrafieh, à esnobe do Verdun, da senhora velada do Dahiyeh, até o homem de Bourj Hammoud. A maioria têm condições de pagar um sexólogo, que continua a ser um luxo, pois o importante é não morrer com uma vida sexual pobre. 

Os financeiramente tensos, a procuram quando o casamento está em jogo, com risco de divórcio, caso as coisas não melhorarem sexualmente, ou se não surgir uma gravidez no caminho, é quando as coisas ficam um pouco mais sérias. E as queixas dos pacientes mais ricos, são sempre relacionadas a dificuldade de encontrar o seu ponto G, por exemplo. 

Há também mulheres que foram estupradas, que estão traumatizadas e revoltadas quando seus maridos querem tocá-las. E outras, sem qualquer forma de abuso, mas traumatizadas por experiências passadas, e cheias de fobias. São mulheres, muitas vezes educadas em algum tipo de casulo, com medo de natação, de transporte publico, e etc.. que sofrem de vaginismo (contrações involuntárias dos músculos da vagina, que impedem qualquer tipo de penetração). 

A Dra diz que a coisa piora, quando elas procuram um ginecologista, ele remove seu hímen, estica os músculos vaginais, ou sugere o uso de um vibrador, o que não resolve o problema, porque de fato, elas têm medo da penetração. Ainda que os vibradores sejam parte do tratamento, existe uma técnica específica, para sua utilização, onde é pedido à mulher que comece a experimentar seu próprio corpo, através do toque, e eventualmente, usar um vibrador.

Os maiores problemas sexuais no Líbano, para os homens, é a ejaculação precoce e a disfunção erétil, assim como na maioria dos demais países. Para as mulheres é o vaginismo, porque raramente, as mulheres a procuram porque estão com falta de desejo, ou falta de orgasmo, ao contrario da França, onde as mulheres são bem mais exigentes com o próprio prazer.

 A sexóloga resume, dizendo que não existe um estereotipo padrão, porque há milhares de casos, e um é diferente do outro, mas na maioria dos casos, a educação recebida e a personalidade da pessoa, é o responsável pela sua desenvoltura em relação a sua sexualidade. Ela explica que existem muitas mulheres extremamente inibidas, sem qualquer tipo de fantasias, e que essas precisam de um tratamento abrangente, não apenas com uma sexóloga, mas também com psicanalistas, porque seu trabalho não é sexo analise, e sua terapia dura de 3 a 6 meses.

Em relação à himenoplastia (reconstrução do hímen por meio de cirurgia plástica), a Dra Atallah diz que é uma prática muito comum no Líbano, porém, extremamente hipócrita, porque a sexualidade é a forma como a pessoa se comporta com seu próprio corpo, e não será uma gota de sangue que determinará isso, até porque, 30% das mulheres virgens não sangram, e existem hímens muito elásticos, que muitas vezes, só se rompem durante de um parto normal. 

Dra Atallah foi convidada a dar Curso de Educação Sexual para a “Soeurs de Charité” em Ashrafieh, e pediu que eles lhe definissem virgindade, e disse ter ficado chocada de escutar “se ela está aberta ou não” como resposta, como se uma mulher fosse uma garrafa de Pepsi. Ela disse que as pessoas no Líbano vivem dentro de um equívoco, e de uma falta de conhecimento de si mesmas, absurdas. E isso atinge todas as escalas sociais, desde as classes mais baixas, até as mais altas, sem distinção. E questionar o porquê desse tipo de analogia vulgar, não ser feita também aos homens. 

 Em relação às mulheres libanesas, que se vestem com roupas provocantes, mas que não são tão aventureiras no quarto, ela explica que na psicologia, isso é chamado de Fenômeno da Personalidade Histriônica; o que, aliás, é muito comum em vários países do oriente médio e países do mediterrâneo, como a Itália por exemplo. 

A Dra diz que essas pessoas são muito focadas na aparência, e que as mulheres que aparentam serem verdadeiras bombas sexuais, de fato, na maioria das vezes, não têm prazer algum na cama, porque elas mesmas, nunca entenderam verdadeiramente os seus próprios corpos. Elas estão na superfície da sociedade, apenas para agradar, mas falta paixão e compreensão, e isso sempre se estende muito além de suas vidas sexuais, causando diversos conflitos internos. 

Quanto aos homens, ela disse que eles estão cada vez mais preocupados com seu desempenho sexual, porém, sem realmente entender a fisiologia das mulheres. A grande maioria deles se baseia em teses de pornografia, e a inexperiência e a falta de prática, acabam afetando a confiança própria; levando-os a procurar remédios milagrosos nas farmácias (muitos, inclusive, bem perigosos). E ela questiona-os: Como você espera ter uma sexualidade adulta, quando ainda se vive como uma criança em casa?


Contato: 
Dra Sandrine Atallah –
Sexologia e Hipnose Médica
Clinique Du Levant 
Tel: 1 496 161
Clemenceau Medical Center 
Tel: 1 372 888 - ramal: 6700
Cell Phone number: 
03 69 35 94
Email: 



Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute
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