A gradativa transformação de Arsal em um gueto


Arsal vem se tornando um grande problema à parte, do conflito sírio, na fronteira sírio-libanesa, todos os veículos passam por um controle do exercito libanês para inspeção, principalmente caminhões de transporte, ainda que alguns passem sem muito controle, e pessoas são questionadas sobre sua cidadania libanesa, além de terem seus pertences pessoais revistados antes de passar pela região..

Palco de diversos distúrbios, sequestros, bombardeios, invasões do exército sírio, e intervenções do exército libanês, desde o início da guerra no país vizinho, Arsal vem sendo tomada por um constante, crescente e intenso afluxo de refugiados sírios, vindos de diversas cidades e vilarejos do outro lado da fronteira, e ainda figura, como a principal rota do contrabando de combustível e outros itens.

Até o início da guerra na Síria, a cidade era habitada por 35 mil pessoas, um número que dobrou somado aos 40 mil refugiados que hoje residem em Arsal. A cidade ainda serve de refúgio para os rebeldes sírios e jihadistas radicais, que frequentemente lideram incursões estratégicas, em direção ao vilarejo libanês. 

Com o envolvimento do Hezbollah no conflito sírio, durante a batalha de Qusayr, a cidade teve sua segurança deteriorada, e enfrenta constantes confrontos com as aldeias vizinhas. Foi necessária a criação de um controle mais rigoroso, na autorização de entrada e permanência de refugiados sírios no país, para se fiscalizar a entrada e saída de pessoas no país, pela fronteira síria. 

Toda essa atividade alterou inclusive o tráfego diário na cidade, onde caminhões formam uma enorme fila em suas estreitas ruas, e disputam a incursão com dezenas de veículos e motocicletas, transformando o antigo e pacato cenário da cidade, num grande e estressante caos e desordem. As condições de vida sub-humanas, em que os refugiados vivem nos acampamentos, dão a visão chocante de uma enorme favela aberta em Arsal, onde batalhar por uma única refeição diária, é um desafio para as famílias de refugiados sírios, que ainda lidam com a extrema pobreza, e também com a discriminação.

 Os refugiados relatam que enquanto o regime sírio tinha o controle das cidades fronteiriças, a situação não era tão ruim para eles, mas quando as milícias rebeldes invadiram essas regiões, eles viram o inferno diante de seus olhos, e não havia outra maneira de sobreviver, a não ser fugir para o Líbano, com o que coube em suas mãos, afirma Nada, uma refugiada síria que vive em Arsal com sua família. De acordo com Ahmad, marido de Nada, o ACNUR deu aos refugiados apenas colchões, e todo o restante necessário, eles têm custeado como podem, por conta própria.

Ghassab, representante da comunidade de refugiados sírios do campo de Arsal, diz que nem mesmo água eles possuem, e que eles ficam até semanas sem poder banho, porque o que conseguem de água, dá apenas para lavar o rosto. Ele explica ainda, que não há emprego disponível na região, para agregar a demanda de famílias que vivem no campo, para que eles possam prover alimentos e condições básicas de sobrevivência a todos, e a maioria está vivendo ilegalmente no Líbano, porque não possuem nem seus próprios documentos de identificação. 

A proximidade do inverno vem causando muita preocupação em todos os refugiados, que lamentam terem deixado Qusayr para viverem em condições tão deploráveis, e à margem da sociedade. Eles sabem que o período de chuvas e o frio intenso, irão inundar de água o acampamento improvisado, tornando a situação de todas as famílias de refugiados, ainda mais insustentável.

Mesmo registrados na ONU, eles alegam não estarem recebendo ajuda humanitária o suficiente, e de acordo com os relatos de diversos refugiados, a ONU aparece na região a cada 3 dias, ajuda  cerca de 300 famílias, mas outras milhares delas, ficam sem qualquer auxilio. 

Ghassab afirma ainda, que a comunidade de Arsal os ajuda, os acolhe, mas a demanda de necessitados é imensa, frente aos que estendem as mãos para ajudá-los, e que as vidas dessas famílias, em sua maioria de mulheres e crianças, encontram-se abaixo da miséria, sem qualquer esperança de melhora, e centenas de crianças nem podem frequentar a escola.

 O Prefeito de Arsal, Ali Hujairy, escapou recentemente de ser assassinado numa aldeia rival da região, e diz que as negociações durante sequestros e retaliações, vêm lhe proporcionando um aprendizado tão grande, quanto à cicatriz que ele ganhou em sua cabeça. Segundo Hujairy, as tensões frequentes, envolvendo os Jaafars e Moqdads, clãs xiitas dominantes das aldeias de Labweh e Hermel, transformaram a região num campo de guerra à parte. 

A insegurança e o medo, já fazem parte do cotidiano de toda a sociedade da região, onde ninguém sabe, quem será o próximo alvo de retaliações, sequestros e assassinatos, entre os membros dos dois clãs, que são divididos entre apoiadores e opositores do regime sírio e do Hezbollah.

 De acordo com o prefeito, a Cruz Vermelha se recusa a atender feridos de Arsal, porque eles são frequentemente interceptados no caminho para Baalbek, nos postos de controle do Hezbollah, que autoriza apenas a travessia de libaneses. 

Os refugiados sírios, que pretendem se registrar junto a ONU, precisam passar pelo posto de controle do exército, porém, se eles não possuem a permissão de residência no país, são enviados para a Segurança Geral, onde são obrigados a pagar US$440 de taxa de legalização, e quem não paga, automaticamente é deportado.
  
 Hujairy diz que os refugiados estão presos em Arsal, 40 mil refugiados ilegais, em sua maioria crianças, estão completamente impedidos, e por tempo indeterminado, de terem uma vida digna e decente, e que não existe qualquer alternativa, ou projeto, que os auxilie a sobreviver ou, pelo menos, matricular suas crianças em escolas próximas, onde milhares de crianças estão completamente aptas a receber o ensino, mas nem podem nem prestar o exame nacional do governo, por não falarem o francês. 

 Ele acrescenta ainda, que alguma coisa deve ser feita, urgentemente, por essas pessoas, que instituições e ONGs precisam criar condições melhores a essas famílias, acolhê-los com dignidade e mais humanidade, porque até o momento, a inércia e a burocracia desumana usada como esquiva, não tem servido para solucionar, de forma prática e imediata, a situação dessas pessoas, pelo contrário, têm apenas contribuído para que a cidade continue se transformando num gueto marginalizado, e à deriva pelo Estado.


Claudinha Rahme
Gazeta de BeirutE

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