A polêmica e admirável “Pagu”

Patrícia Rehder Galvão, ou simplesmente Pagu, como ficou conhecida na historia do movimento  modernista, iniciado em 1922, foi uma escritora, jornalista, ativista comunista, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, e a primeira mulher brasileira  a ser presa por motivos políticos.

Nascida numa família de classe média alta, conservadora e tradicional, em São João da Boa Vista, em 1910, Pagu foi uma garota completamente a frente do seu tempo. Aos 12 anos, conheceu Olympio Guilherme, diretor do filme “Fome”, o primeiro filme neorrealista brasileiro, e teve sua primeira experiência sexual. 

Aos 15, ela passou a escrever para o Jornal do Brás, sob o pseudônimo de Patsy, e Pagu já usava blusas transparentes, fumava na rua e falava palavrões, uma garota completamente diferente das demais da sua idade. 

Aos 18, Pagu integrou o movimento antropofágico, de cunho modernista, e teve um caso amoroso com o escritor Oswald de Andrade, que culminou com o fim de seu casamento com a pintora Tarsila do Amaral. Em 1930, numa cerimônia simbólica, dentro do cemitério da Consolação, em São Paulo, Pagu e Oswald se casam e depois, têm um filho, Rudá de Andrade. 

Aos 20 anos, militante do movimento comunista, ela incendiou o bairro do Cambuci em protesto contra o governo provisório, e aos 21, tornou-se a primeira mulher a ser presa no Brasil, por motivos políticos, ao substituir num comício comunista, um amigo estivador, que foi morto em seus braços pela polícia. Esta foi apenas a primeira prisão de Pagu, dentre as 23 que ela teve, ao longo da vida. 

Quando foi libertada em 1933, a jovem Pagu partiu para uma viagem pelo mundo, para trabalhar como repórter, e deixou o marido e o filho no Brasil. No mesmo ano publicou o romance “Parque Industrial”, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Em 1935, filiada ao Partido Comunista da França, ela é presa como comunista e identidade falsa, ia ser deportada para a Alemanha nazista. 

O então Embaixador brasileiro, Souza Dantas, conseguiu enviá-la de volta ao Brasil, onde ela se separou de Oswald de Andrade, após muitas brigas e ciúmes; e Pagu retomou sua atividade jornalística. Porém, seu passado a assombrava, e novamente ela foi presa e torturada pela Ditadura, ficando na cadeia por cinco anos. 

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o Partido Comunista, aderiu ao trotskismo e incorporou a redação do Jornal “A Vanguarda Socialista”, iniciando em 1946, a sua colaboração regular no Suplemento literário do “Diário de São Paulo”. Em 1945, Pagu se casou com Geraldo Ferraz, Jornalista do Jornal “A Tribuna de Santos”, cidade na qual passaram a viver, e com ele, teve seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz.

Na mesma época viajou à China, para a coroação do último imperador chinês, Pu-Yi, obtendo através dele, as primeiras sementes de soja que foram introduzidas no Brasil, além de ter trabalhado como correspondente em vários jornais, e de ter visitado vários países, e inclusive, entrevistar Sigmund Freud. 
Em 1949, ela tenta suicídio com um tiro na cabeça, e escreve sobre isso em Verdade e Liberdade, panfleto de 1950: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas”. Ainda em 1950, Pagu tentou se candidatar ao cargo de Deputada Estadual, porém não teve sucesso. 

Em 1952, entrou para a Escola de Arte Dramática de São Paulo, onde levou seus espetáculos teatrais para Santos, onde ainda, engajada no entretenimento cultural da cidade, ela influenciou, incentivou, e deu apoio a dezenas de novos artistas, e grupos teatrais amadores, revelando e traduzindo grandes autores, ate então, inéditos no Brasil. 
Ela escreveu diversos contos policiais, romances, e trabalhou como crítica de arte, e nessa época, foi diagnosticada com câncer. Pagu viajou a Paris para se submeter a uma cirurgia, que não teve sucesso, e frustrada e decepcionada, ela tentou suicídio novamente. 

Em seus últimos anos de vida, Pagu trabalhava sem parar, mas também bebia muito e estava sempre descabelada, desgrenhada, com as roupas puídas e fora de moda, sempre com um olhar angustiado, cansado e vago. Antes de retornar a Paris, para outra cirurgia, em meados de Setembro, ela publicou seu último texto na Tribuna de Santos, um pequeno poema intitulado “Nothing”; e três meses depois, de volta ao Brasil, ela morre vencida pelo câncer, em 12 de dezembro de 1962.  





Claudinha Rahme
Gazeta de Beirute 

Fontes: Infoescola / Estadão / Pagu.com. br
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