Entrevista com a Consul Honorária Siham Harati

A  Gazeta de Beirute, entrevistou com a jornalista Chadia Kobeissi e Shadi Kobeissi, a Consul Honorária no Líbano, na região do Vale do Bekaa, Siham Harati.

Nascida na região do Bekaa, Líbano, ela veio para o Brasil aos 15 anos de idade com seu marido. Dessa união ela teve 5 filhas, e mais tarde voltou a morar no Líbano, após o falecimento de seu pai. 

Os brasileiros no Líbano são estimados entre 5 e 10 mil pessoas, e mesmo sendo uma comunidade pequena, em relação a outros países da região, três pessoas do Líbano, foram elegidas para o Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior (CRBE), entre eles Siham Harati.

Dos brasileiros que moram no Líbano, cerca de 1.300 pessoas votaram, elegendo Siham Harati. Ela conseguiu mais votos do que o candidato do Japão, onde a comunidade brasileira esta em torno de 300 mil brasileiros.
Por esta razão, houve uma polêmica em torno disso, e principalmente quando ela foi nomeada pelo Itamaraty, com o cargo de Consul Honorária (uma cargo não remunerado).

Muitos da comunidade brasileira a parabenizaram, mas por outro lado, houve pessoas que acabaram questionando essa votação. Como o ex-suplente, Khaled Hamad Haymour, que se dirigiu ao Itamaraty em protesto, mas sem obter respostas, abandonou seu cargo.

Atualmente, Siham, é muito elogiada por seu trabalho, junto à comunidade brasileira, na região. Para acompanhar de perto, nós fomos até sua casa, onde o motorista de Siham, gentilmente veio nos buscar, no centro da cidade. Ao chegarmos, Siham estava nos esperando. Sua casa é uma verdadeira mansão. O primeiro andar, é dedicado ao atendimento consular, e sinceramente, um lugar muito mais equipado e amigável, para suprir as necessidades dos brasileiros, do que o Consulado Geral do Brasil em Beirute. Pois há um grande espaço, estacionamento, cadeiras confortáveis, e o principal: banheiros. E segundo muitos brasileiros da região, o atendimento, é mais prático e agradável.


E para conhecer um pouco mais dessa personalidade marcante e popular, confira a entrevista:

GB: Bom dia Siham, a senhora foi ao Brasil muito jovem, aos 15 anos de idade, qual foi sua primeira impressão do Brasil?

Siham Harati: Bom dia, inicialmente, eu não conseguia me comunicar, pois não falava a língua. Eu falava o árabe, inglês e francês. O francês me ajudou muito, pois há muitas palavras parecidas. Então de início, eu me esforcei, para aprender o português, tentando conversar com as pessoas e lendo jornais e revistas. Mas de primeira impressão, logo notei o respeito entre diferentes religiões, e a humildade do povo brasileiro.

GB: A senhora chegou a estudar no Brasil?

Siham Harati: Então, uma grande vontade minha, era poder ingressar na faculdade. Mas eu tive 5 filhos, e muito cedo, eu já era mãe de 4 filhas,  acabei me dedicando, inteiramente para elas.

GB: Quando a senhora retornou ao Líbano, e quando se tornou membro do CRBE (Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior)?

Siham Harati: Eu fui para o Brasil em 1967, eu viajava para o Líbano todos os anos nas férias das minhas filhas, após o ano 2000, a minha estádia anual se estendia por alguns meses no Líbano. Mas quando eu fui eleita Conselheira Representante da Comunidade Brasileira no Exterior em 2010, passei a morar o tempo integral no Líbano e apenas passava um mês de férias no Brasil.

GB: E me conta, como foi o processo para se tornar Conselheira Representante dos Brasileiros no Exterior?


Siham Harati: Bom, tudo começou depois que o ex-presidente Lula, fez o decreto lei, que dizia que a Diáspora brasileira poderia eleger representantes, para participar das conferências de brasileiros no mundo. E nessa conferência, os representantes levavam ao cohecimento do Itamaraty os pleitos da comunidade daquela região que representavam.  Então o mundo inteiro foi dividido em 4 regiões, o Líbano que foi incluído junto aos países do Oriente Médio, Ásia, África e Oceania. Fui contatada pela embaixada sob esse decreto. E eu participei, porque eu poderia pleitear as necessidades da comunidade brasileira no Líbano. E quando eu me candidatei, eu fiquei sabendo que iria concorrer com diversos candidatos de países onde a comunidade brasileira era bem maior. Mas eu, já tinha iniciado minha campanha, e a minha vitória foi uma grande surpresa.

GB: Como foi realizado o processo de eleição dos candidatos para o CRBE?

Siham Harati: Foi um processo de votação através da Internet, em uma página eletrônica, onde aparecia o nome dos candidatos, e esta página era controlada pelo Itamaraty.

GB: E como foi depois que a sr. soube que foi eleita, com o maior número de votos, inclusive competindo com candidatos de outros países?

Siham Harati: Quando eu fui eleita para o CRBE, pela credibilidade de minha comunidade, e porque na região a população sentia necessidade de alguma assistência, ofereci um andar na minha casa, para assistência consular aos brasileiros, ajudando no preenchimento de formulários e tradução. Me aproximando mais da comunidade brasileira, eu notei, que havia vários problemas relacionados a mulher brasileira, casada com libanês. E então eu quis ajudá-las, e comecei a lutar pelos direitos das mulheres. E  quando terminou meu mandato como Conselheira, eu fui nomeada como Consul Honorária.  Isso foi uma nomeação do Itamaraty. E o que eu acho que pesou muito na minha nomeação, foi o fato de eu ser mulher, no Oriente Médio, querendo buscar mais direitos para as mulheres brasileiras.

GB: Então me diga um pouco de como é seu trabalho, para ajudar as mulheres brasileiras no Líbano, que vivem dentro das leis religiosas do Oriente Médio.

Siham Harati: Eu passei ao Itamaraty, a situação das mulheres brasileiras no Oriente Médio, especialmente no Líbano, onde elas devem se submeter, as leis religiosas cristãs e muçulmanas, e assim sendo, muitas acabavam passando por situações difíceis, onde as leis locais no tribunal de justiça religioso beneficiam mais os homens. E então passamos a orientar as mulheres que moram no Líbano, a fazer a transcrição do casamento no Brasil. Sendo assim, no caso de uma eventual separação no Líbano, ela poderá recorrer ao Tribunal de Justiça Civil Libanês, onde será aplicada no processo da separação a lei do país, onde foi feita a transcrição, no caso a lei brasileira. Este novo processo é realizado em várias etapas, que se inicia no Consulado Brasileiro no Líbano, e assim ela poderá se divorciar, e receber pensão para os filhos, mesmo estando no Líbano. 

Consequentemente procuramos beneficiar também a mulher libanesa casada com brasileiro, que poderá adquirir o visto permanente, e após cinco anos de residência no Brasil se tornar uma cidadã brasileira. Anteriormente, ela acompanhava o seu cônjuge com visto de turista, e ficava com uma permanência ilegal no Brasil desprovida de seus direitos. 

Em relação a minha assistência a mulher, eu procuro sempre orientar dentro das leis brasileiras e libanesas, as mulheres que procuram o meu Consulado, como proceder para preservar os seus direitos como esposa e mãe e principalmente os recém-casados a não viajarem para o Brasil como turistas mas sim como esposa e com visto permanente para evitar a emigração ilegal para o Brasil e para zelar pelos seus direitos de esposa e futura mãe.

GB: Uma pessoa que mora em Beirute, pode ser atendida pela senhora no Vale do Bekaa?

Siham Harati: Vou te explicar desde o início, antigamente, quando o senhor Chucri Makari foi escolhido como Consul Honorário, não existia o Consulado Geral do Brasil no Líbano. Pois quando existe um consulado geral, não pode existir um consulado honorário.  Então como já tinha o Consul em Trípoli,  e ele foi substituído por mim, manteve-se o mesmo título de Consul Honorária em Trípoli. E eu posso abrir um escritório consular em Trípoli, mas aqui no Vale do Bekaa a comunidade é maior, e até mesmo muitas pessoas de Beirute vem em minha casa, e também são atendidas. Então meu trabalho não está limitado em área. Quando houve a Jornada Mundial dos Jovens por exemplo, eles vieram, de várias regiões do país, e foram recebidos aqui. 

GB: Então posso afirmar que a senhora é Consul Honorária do Líbano?

Siham Harati: Sim, do Líbano.

GB: Quais são os trabalhos que a sr. realizou em prol da comunidade brasileira no Líbano?

Siham Harati: Esse atendimento diário consular, já consome, muito do meu tempo, porque é uma grande responsabilidade. E qualquer documento que a comunidade brasileira venha fazer no Consulado, exige uma orientação, e assistência, pois há muitos documentos que são exigidos (inclusive dos que tem dupla nacionalidade), e também formulários, e nem todos sabem preenche-lo. O custo disso também é meu, então envolve meu tempo, meu dinheiro e minha casa também.  E nós fizemos uma proposta para aqueles que queriam aprender o português, nós trouxemos livros de Beirute. Os jovens de Zahle, por exemplo, que foram para São Paulo, para receber o Papa, se interessaram. E eles são jovens que querem realmente aprender o português, mesmo que já falam 3 línguas. Sinto uma imensa alegria em ver jovens assim, aprendendo a língua em amor ao Brasil. E uma das coisas mais importantes, que sempre tento realizar, é a busca pelos direitos das mulheres, como já citei anteriormente. 

GB: O Projeto Alecrim, que era um trabalho envolvendo crianças que geralmente possuíam dupla nacionalidade (brasileira e libanesa), a se envolverem em atividades relacionadas a cultura do Brasil, não está mais sendo realizado no Líbano. Mas a mídia brasileira, divulga o projeto como se ele ainda existisse no Líbano. Você me falar um pouco desse Projeto?

Siham Harati: O projeto Alecrim, é um programa que foi realizado pela esposa do Ministro Luiz Eduardo Pedroso. Eu sou a pessoa menos indicada para falar sobre isso, mas era um excelente projeto. Eu até fiz uma festa junina em minha casa para incentivar. E depois teve um encontro no Consulado, onde eu também fiz uma doação. Mas eu não sei realmente o que aconteceu com esse Projeto, e porque ele atualmente não existe mais no Líbano. 

GB: E como funciona o trabalho do Consul Honorário? Ele trabalha também na parte relacionada a vistos?

Siham Harati: O Consul honorário trabalha com os brasileiros. Mas como é necessário que para um libanês conseguir visto, ele possua uma “carta chamada” de um brasileiro. Então eu atendo o brasileiro, que vem aqui, para fazer esta carta chamada. Além disso, a carta chamada no Brasil, custa 400 reais, aqui eu faço gratuitamente, pois não há taxa consular sobre isso, além de ficar pronta imediatamente. 

GB: E quanto tempo demora geralmente para um libanês conseguir um visto?

Siham Harati: De vinte dias a um mês, conforme o caso, porque você deve encaminhar a consulta para o Itamaraty, então você fica dependendo da resposta do Itamaraty. E aqui também nos preenchemos o formulário para o libanês que quer conseguir o visto, mas não sabe o português.

GB: Um fator importante é a segurança, então gostaria de saber, em uma situação emergencial, o que pode ser feito pela comunidade brasileira, em um país como o Líbano que às vezes carece de estabilidade, por possíveis conflitos?

Siham Harati: Eu sempre falo que o mais importante é a matrícula, pois em caso de emergência, nós poderemos localizar os brasileiros que aqui residem. Há vários planos em casos de conflitos e guerras, mas na prática tudo pode variar, porque não sabemos que tipo de problema pode ocorrer no Líbano, então fica difícil visualizar, qual será a rota da fuga por exemplo, já há possibilidade de acontecer conflitos em diversas regiões do país. Mas já temos em mãos orçamentos de empresas para o transporte, e alimentação, em um caso extremo. E para cada região do Líbano, há um representante, um responsável de cada área instruído a agir em uma emergência, mas tudo vai depender de como executar o plano. Na região do Bekaa, sou eu, e de certa forma as pessoas se sentem seguras com a minha presença na região. É importante destacar, que aqui, nós não recolhemos o documento original de ninguém, apenas pedimos que a pessoa apresente o original, mas então fazemos uma cópia autenticada, e ficamos com as cópias, para que o brasileiro sempre esteja com o documento original em mãos.



GB: Quando acaba o seu mandato?

Siham Harati: A nomeação é para quatro anos. Mas dizem que o Consul anterior a mim ficou por muitos anos. 

GB: Quantas pessoas trabalham para senhora?

Siham Harati: Duas pessoas, e a tradutora, mas eu gosto de verificar os documentos, então me conte com eles, são 4. 

GB: Quantas pessoas, vocês atendem por dia?

Siham Harati: Bom, há muitas pessoas que vem aqui, apenas para se informar, ou que quando chegam faltam alguns papéis para fazermos um documento. Mas recebemos em torno de 30 a 50 pessoas, por dia. E nós atendemos as ligações da comunidade, durante todo o período de atendimento, em alguns casos, até depois. 

GB: O que vc achou da Gazeta de Beirute?

Siham Harati: Primeiramente, eu dou os parabéns por essa iniciativa, e para você como mulher, que está realizando esse trabalho. E há muitos libaneses no Brasil, que sempre querem acompanhar as notícias. E aqui eles tem mais uma fonte do Líbano, onde as pessoas sempre podem ficar atualizadas, juntamente com os canais de televisão árabes. 

GB: Com essa experiência, o que a sr. tem a dizer, desses dois países, Líbano e Brasil?

Siham Harati: Eu nasci no Líbano, e fui muito nova para o Brasil. Eu devo muito ao Brasil, primeiro ao Brasil, porque nos deu muito, o Brasil, é um pais muito generoso. Já o Líbano é minha origem, a terra dos meus pais, o país da minha infância. O sentimento pela pátria mãe, já está no sangue. Mas eu tenho muita gratidão e amor pelo Brasil, e apenas estou morando no Líbano, para honrar meu compromisso com a comunidade brasileira, porque antes eu vivia no Brasil, e vinha no Líbano apenas à passeio.

GB: Muito obrigada Siham Harati, por esclarecer nossas dúvidas.

Siham Harati: Obrigada, e qualquer dúvida, terei o prazer de recebê-los novamente, e ajudá-los, no que for preciso.

Após a entrevista, ela nos convidou para almoçar, e a conversa estava apenas começando...

Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute
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