Brasil dá a largada na Feira do Livro de Frankfurt

O maior evento literário do mundo começou com um discurso polêmico, do Escritor Luiz Ruffato, sobre as desigualdades sociais brasileiras e com vaias a Temer, que lembrou sua experiência como poeta. 

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem, definitivamente, não é uma metáfora?" 

As palavras do Escritor, Luiz Ruffato, foram às primeiras pronunciadas em português, no palco da cerimônia de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, que tem o Brasil como convidado de honra, na última terça-feira (08/10).

Após as boas-vindas alemãs, o discurso de Ruffato abordou a desigualdade e as injustiças sociais brasileiras, o sistema de ensino falho, e a falta de acesso à leitura. "No país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes", afirmou. O autor destacou o "papel transformador da literatura", que disse o motivar a escrever. 

Suas primeiras palavras, “Por suas palavras”, foram elogiadas pelo Ministro do Exterior alemão, Guido Westerwelle, que discursou em seguida. As críticas de Ruffato à realidade brasileira arrancaram longos aplausos do público, mas também reações exaltadas, como a do Cartunista Ziraldo. "Não tem que aplaudir! Que se mude do Brasil, então!", disse de pé.

Além de Ziraldo, diversos outros nomes integrantes da comitiva de 70 autores brasileiros em Frankfurt, formaram a plateia do auditório, com quase duas mil pessoas, como Ruy Castro, Daniel Galera e Nélida Piñon, Ex-Presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A atual Presidente da ABL, Ana Maria Machado, fez um discurso menos político e mais poético, que o de Ruffato. A escritora convidou o público alemão a mergulhar na literatura "plural, múltipla e diversa, em que os regionalismos eventuais se esgueiram pelas frestas de um cosmopolitismo inesperado". "Não venham procurar o exotismo e o pitoresco", ela advertiu.

Literatura e política
A abertura da passagem do Brasil, como país convidado, da 65ª edição da maior feira literária do mundo – quase 20 anos após a primeira homenagem, em 1994 – também foi marcada pela fala de figuras importantes da política brasileira e alemã. Westerwelle ressaltou a parceria Brasil-Alemanha, em termos econômicos, e quanto a valores comuns – democráticos, de direitos humanos e culturais. "A presença de tantos autores brasileiros aqui na cerimônia de abertura, é uma prova, do valor dado à cultura pelos brasileiros. E a cultura nos une", disse ele.

O Vice-Presidente, Michel Temer, também abordou questões democráticas, e afirmou que o país viveu um avanço político-social nos últimos 25 anos, desde o estabelecimento da Constituição de 1988. Mas ao tentar fugir da política, e entrar no campo pessoal, Temer arrancou vaias da plateia.

"Eu mesmo publiquei um livro de poemas, que tem muito da minha infância. E até hoje não recebi nenhuma crítica por ele, nem positiva, nem negativa", disse ele, para surpresa dos presentes. 



Já no pavilhão do Brasil, com 2.500 m², construídos todo em papel, a Ministra da Cultura, Marta Suplicy, discursou em clima de festa, ao som de música brasileira, regada a pão de queijo e caipirinha. "A feira traz apenas uma amostra de nossa maior riqueza: a cultura", disse. 

Para quebrar clichês
Para o projeto Frankfurt, que abarca a feira do livro e a programação artística paralela ao evento, foram investidos R$18,8 milhões do governo, provenientes do Ministério da Cultura (MINC), do Ministério das Relações Exteriores, da Funarte, da Câmara Brasileira de Livros (CBL), e da Biblioteca Nacional (BN).

Renato Lessa, que assumiu a presidência da BN em 2013, critica o modelo de financiamento atual da feira, com somente fundos governamentais. "Vale o investimento na imagem do país, mas acho que o gasto pode ser mais bem distribuído, porque também é uma feira de negócios, comercial. Temos um setor privado de editores, muito robusto, e acho que no futuro, devemos adotar um modelo compartilhado, entre Estado e setor privado."

Lessa destacou a feira, como uma oportunidade de promover a cultura brasileira, mas disse que deve haver uma continuidade de políticas públicas nesse sentido, como o programa de bolsas para a tradução de autores brasileiros da BN, e parcerias com museus. 

O presidente da BN aposta no conteúdo dos debates, a serem promovidos pelos autores brasileiros em Frankfurt nos próximos dias, e também destaca a qualidade do pavilhão do país. O pavilhão foi concebido por Daniela Thomas e Felipe Tassara, e construído todo em papel, com paredes sinuosas em homenagem a Oscar Niemeyer, e ao Modernismo brasileiro. O objetivo do espaço é mostrar um Brasil moderno e contemporâneo.

"Acho que se tem muito o estereótipo, de que o Brasil é o país do samba, do futebol, e é uma selva. Temos tudo isso sim, mas temos mais. Temos nossas arquiteturas modernas, nossa contemporaneidade, nossa inventividade. O pavilhão, e a programação, tentam mostrar a produção contemporânea para além dos clichês", afirmou o Curador e Coordenador do Projeto Frankfurt 2013, Antônio Martinelli.

Sendo assim, a Alemanha será invadida pela cultura brasileira em 2013, em uma programação cultural que deverá englobar, além da participação de autores brasileiros, nas diversas feiras de livros do país ao longo do ano, com apresentações de dança, música e teatro.


A iniciativa faz parte da política do MINC, de internacionalizar a literatura brasileira até 2020, e também contempla uma grande exposição de arte, concebida pelos Cenógrafos, Daniela Thomas e Felipe Tassara, com o objetivo de refletir a força da criação artística no país. 

Além disso, o Museu de Arte Moderna de Frankfurt, e o Jardim Palmengarten, receberão no mesmo ano, obras de Hélio Oiticica.

Frankfurt também ganhará variadas “estações brasileiras” – pontos de cultura espalhados por diferentes espaços da cidade -, além de apresentações da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e do pianista Nelson Freire. No domingo (14/10), dia do encerramento da feira deste ano, o Escritor Milton Hatoum recebeu o bastão da Nova Zelândia, homenageado desta edição.

Depois de quase duas décadas, o investimento de quase R$19 milhões não escapou de uma polêmica, que ganhou força na imprensa alemã, e repercutiu também no Brasil: A seleção dos 70 autores que, ao menos nos planos dos organizadores, darão um rosto mais moderno, e internacional, ao país do samba e do futebol. A polêmica começou com o Jornal alemão, Süddeutsche Zeitung, que contou apenas um negro – o carioca Paulo Lins – e um indígena – o belenense, Daniel Munduruku – na lista dos escritores convidados, e questionou se teria havido racismo, nos critérios de seleção.

Na sequência, foi a vez de Paulo Coelho, o escritor brasileiro mais conhecido no exterior, a criticar os nomes escolhidos e, em protesto, anunciar seu boicote à Feira do Livro de Frankfurt. "Dos 70 convidados, só conheço 20, nunca ouvi falar dos outros 50. São, presumivelmente, amigos dos amigos dos amigos. Um nepotismo. O que mais me aborrece: existe uma nova e excitante cena literária no Brasil. Muitos desses jovens autores não estão na lista”, afirmou Coelho ao Jornal Welt Am Sonntag.

O presidente da Feira de Frankfurt, Jürgen Boos, tentou minimizar as críticas. "Com toda certeza, não houve nenhum racismo. Temos esta mesma discussão todos os anos. Não tem nada a ver com o Brasil ou com minorias. Quando é feita uma seleção, é natural que alguns fiquem de fora", observou Boos. 

Também a Ministra da Cultura, Marta Suplicy, defendeu a escolha, argumentando: "Toda lista tem um recorte, que provoca discussão. O critério não foi étnico, mas a qualidade estética e a tradução. A Feira de Frankfurt é comercial".


Jeane Satie Abou Nimry
Gazeta de Beirute

Fontes: R. Cult/ DW/ e UOL. 
Share on Google Plus

About beirut lebanon

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.

0 comments:

Postar um comentário