Enquanto o governo libanês gasta com corte internacional


Enquanto o governo libanês gasta, anualmente, US$25 milhões para pagar a corte internacional, que investiga o atentado terrorista que matou o falecido Primeiro Ministro, Rafic El Hariri, o povo libanês é lesado, e sofre com a falta de escolas e hospitais públicos, a falta de empregos, centenas de crianças ficam nas ruas, pessoas morrem diariamente, por não terem condições de se internarem, ou se tratarem nos hospitais. 

O inverno não começou, mas na primeira chuva forte que cair, as ruas, estradas, e principais rodovias ficarão inundadas pelas águas, porque muitas redes de esgotos não foram limpas, ou sequer instaladas. E será comum, como sempre, ver os moradores, puxando a água das ruas com seus rodos, para que seus filhos possam ir às escolas.

E por falar em escolas, vamos falar sobre as escolas públicas, que de públicas não tem nada...

Muitas pessoas não sabem, mas as chamadas “escolas públicas” no Líbano, não são completamente gratuitas, existe uma taxa mínima obrigatória a ser paga, e essa taxa mínima, varia entre 500 a 800 mil liras libanesas, o equivalente à US$ 335,00 a 535,00 por ano. Fora uniforme e material escolar, pois as escolas também não fornecem uniformes, ou qualquer tipo de material escolar aos estudantes. 

O salário mínimo no Líbano é de 500 mil liras, menos que US$400,00, e muitas pessoas tentam sobreviver com este salário, e outras, num esforço ainda maior, tentam a “mágica” de viver, com ainda menos que isso. Hoje, um pai de família, com 2 ou 3 filhos, e que ganha um salário mínimo, ou de 2 a 3 salários, tem que pagar 2 contas de eletricidade, pois na maior parte do tempo, não há energia elétrica no país, o que obriga cada libanês, a pagar para ter um gerador de eletricidade, além da conta de água, alimentos, remédios, e etc. Como um cidadão que recebe tal salário, pode pagar a escola dos seus filhos

Ainda que a escola seja pública, ele terá que pagar a taxa de registro para cada filho, uniformes, e material escolar para eles. Como isso é possível, com um salário tão baixo, em um país, onde o custo de vida é tão alto? Por essa razão, é que milhares de crianças libanesas, estão literalmente nas ruas, umas trabalham vendendo flores ou chicletes nas estradas, para ajudarem os pais, outras trabalham em supermercados, oficinas mecânicas, e muitas vezes, exercendo trabalhos pesados, um total abuso ao direito da criança. 

E há ainda, crianças que podem ser vistas descalças, sem agasalhos, em pleno inverno, perambulando pelas ruas pedindo esmola, simplesmente para poderem comer. O governo não oferece qualquer ajuda à essas crianças ou aos seus pais, somente cobra-lhes taxas e mais taxas.

Há dois dias, o telejornal das 20h00min da rede de TV LBC, mostrou uma senhora idosa, com um profundo corte no braço, reclamando que depois de esperar por atendimento na porta do hospital o dia todo, não foi atendida, por falta de materiais e equipamentos no hospital, que alegou não ter, nem mesmo algodão, e esta senhora, por falta de dinheiro, não podia buscar atendimento em um hospital particular. 

Eu pergunto: Cadê o governo libanês? Cadê o Ministro da saúde, o Sr Ali Hassan Khalil? Cadê o Ministro da Educação, o Sr Hassan Dyab? E principalmente, por deter o poder para tudo em suas mãos, cadê o Primeiro Ministro (demitido), Sr Nagib Mikati, que continua exercendo sua função, até que seja nomeado um novo Primeiro Ministro?

O Primeiro Ministro, Nagib Mikati, antes de se demitir de seu cargo, causou grandes conflitos, por grande parte do parlamento não aceitar, que ele retirasse grande quantia de dinheiro dos cofres públicos destinado à corte internacional. Mas ele não se intimidou, e pagou a corte internacional, com o dinheiro do povo! 

Para que se entenda melhor essa história, quem contratou essa corte internacional, para investigar esse o assassinato de Rafic Hariri, foi o próprio filho do Ex Primeiro Ministro, Saad El Hariri. Mas não por conta própria claro, e sim à custa do povo. O mesmo povo, que hoje, mal consegue se sustentar, diante do altíssimo custo de vida no Líbano. 

Diante de tal situação, quando Nagib Mikati foi nomeado Primeiro Ministro, o parlamento se manifestou, e se negou a pagar essa grande quantia em dinheiro à corte internacional, à custa do povo. Mas a oposição de nada serviu, Mikati estava decidido a continuar pagando a suprema corte internacional, à custa de cada cidadão libanês.  

A sociedade libanesa quer saber a verdade sobre o atentado que matou o falecido Rafic El Hariri (eu sou uma dessas pessoas, que quer muito saber a verdade), mas muitos outros morreram da mesma forma, inclusive presidentes, e nunca se contratou uma corte internacional para investigar esses outros casos. Por que somente agora, no caso Hariri? Essa corte já vem trabalhando nesse caso há 8 anos, desde 2005, e até o momento nada foi concluído, além de falsas testemunhas, pessoas presas por anos, e depois liberadas por nada ter sido provado, outras foram presas sem provas, e injustamente.

 E esse caso continuará em aberto por mais alguns anos, supostamente, “investigando” esse caso, e ganhando todo esse dinheiro dos cidadãos libaneses, para não se concluir nada. Afinal, quem não gostaria de receber uma fortuna, para não fazer nada

Como tudo nesse país, essa corte também é politicalizada, pois os americanos possuem os melhores peritos do mundo, resolvem os mais estranhos e misteriosos casos criminalísticos. Por que então, este caso ainda não foi resolvido? Muitos peritos americanos foram trazidos ao Líbano por esta corte internacional na época do crime, para conferir as provas colhidas na cena do crime.

Pelos cálculos do próprio governo libanês, com US$25 milhões poderiam ser construídas 6 escolas e 2 hospitais públicos por ano, e com certeza, com essa quantia disponível, poderia ainda, oferecer melhores recursos à essas escolas, para que elas fossem totalmente gratuitas, e milhares de crianças poderia ser acolhidas e tiradas das ruas, para serem beneficiadas com o que lhes é de direito: o ensino.

Daria ainda, para se equipar os hospitais públicos, com todo o material e equipamento necessário, e evitar a morte de milhares de pessoas, ou no mínimo, permitir que elas morressem de uma maneira mais digna, sem a humilhação de nem serem atendidas, por falta de leitos e de materiais apropriados obrigatórios. 

Em um ano, esse dinheiro poderia ser usado para se construir hospitais, e no ano seguinte, equipá-los apropriadamente, e assim, oferecer à sociedade libanesa carente, uma vida melhor, mais decente, mais digna. E onde, seus mínimos direitos como um ser humano, pudesse então, ser exercidos, como o merecido.  Um governo, com respeito próprio, procura atender primeiramente, às necessidades mínimas de seus próprios cidadãos, antes de sequer pensar ou tentar acolher refugiados de outros países! 

Vamos falar agora, de algo desconhecido para algumas pessoas...

O governo libanês reabriu duas escolas, que foram fechadas e não estavam mais funcionando, realizou obras de reformas básicas nelas, para fornecer ensino às crianças sírias refugiadas, para que elas não fiquem sem escolas, e o mais indignante: TOTALMENTE GRATUITAS! Eles não pagam um centavo para estudarem, e o nosso governo se responsabilizou em pagar os salários dos professores que trabalham nessas escolas. A quem deveria ser oferecida prioridade neste país?Aos cidadãos libaneses ou aos refugiados sírios? 

A maioria dos refugiados que estão entrando no país, rapidamente, conseguem empregos, por oferecerem  mão de obra barata, tomando assim, as vagas de milhares de libaneses. Vocês devem estar se questionando, como eles podem viver no Líbano, diante do alto custo de vida, que não compensa ao cidadão libanês, mas compensa ao refugiado sírio, embora ambos tenham os mesmos gastos para sobreviver, certo?   

A resposta é simples: Todos os refugiados sírios registrados recebem auxílio da ONU e do governo libanês. Auxílio alimentar, financeiro, saúde e medicação gratuita, benefício que o próprio cidadão libanês NÃO RECEBE. 

Sendo assim, independente de quanto seja o salário que um refugiado receba, sempre será recompensador para ele, que não paga comer, para cuidar de sua saúde e se medicar, além de ainda receber uma ajuda financeira, que ajuda para pagar o aluguel.  

Diariamente, vemos ministros, o presidente da república, o primeiro ministro, sempre viajando e pedindo ajuda financeira para abrigar os refugiados, sendo que eles não têm capacidade de abrigar, ou acolher o próprio cidadão libanês. Fora, os que entram no país, como pobres refugiados flagelados, e na maior audácia, ainda têm coragem de roubar, assaltar, arrombar casas, comércios, construírem bombas, e cometer atentados terroristas. E onde está o governo? Dormindo... Sonhando com uma nova e infalível forma de roubar e lesa a sociedade libanesa!

Um governo que se respeita, teria feito um campo de refugiados, e fornecido um auxílio humanitário mínimo e básico, e impediria que esses refugiados, saíssem desses campos, como por exemplo, a Jordânia e a Turquia têm feito; porque eles se respeitam, e acima de tudo, respeitam e protegem o seu próprio povo. 

Mas no Líbano? Não se pensou nisso, pois tudo aqui funciona a base de religião, infelizmente. E tudo é politicalizado, e agora, os refugiados são a nova desculpa para o governo corrupto pedir esmola ao exterior, em nome desses pobres coitados, tão fragilizados e sofridos pela guerra em seu país.

O Primeiro Ministro, Nagib Mikati, muito altruísta e bondoso, e tão preocupado com a religião, com os refugiados sírios, e também, em pagar a corte internacional, se esqueceu de suas próprias obrigações, assim como as demais autoridades, se esqueceram de garantir a segurança dos cidadãos libaneses dentro de seu próprio país, e de proporcionar condições decentes e dignas, para que a sociedade libanesa pudesse garantir e suprir suas próprias necessidades. 

Infelizmente, hoje em dia, o exército libanês, e as demais agências de segurança desse país, saem às ruas para resolver um problema, e são recebidos a tiros pela população, porque ninguém mais respeita as autoridades libanesas. Por quê? Oras, porque o senhor Primeiro Ministro, Nagib Mikati, tem estado muito mais preocupado e ocupado, com os assuntos e problemas alheios, do que com os problemas do país, e de seu povo, que não se encontra mais em sua “santa” lista de prioridades... 


Vergonha alheia!

Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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