Rasgando os rótulos antigos, e os novos


Durante alguns anos fiquei longe do Brasil, no Líbano. Quando um brasileiro, viaja para o exterior, ele começa a comparar tudo que encontra em sua nova jornada, com o seu país: a comida, os amigos, a paisagem, a estrutura social, a organização, enfim tudo aquilo que o ser humano é capaz de perceber, e nessa hora nos queixamos muito, não apenas porque sempre preferimos o país que nascemos, vivemos e estamos acostumados, mas porque no caso do Brasil, realmente muita coisa faz falta. 

E apesar de ter levado em mim, o país que moldou meu coração, sentia ainda muitas saudades, mas isso não me impediu, de ver as belezas no caminho que percorria, porque a terra é nossa casa, e o Brasil, mesmo em sua grandeza, é uma parte desse imenso chão, onde todos, mesmo com diferenças somos ou deveríamos ser irmãos.

Logo vi, não há perfeição em comunidades, ou em nacionalidades. Existe a bondade, que não tem rótulo, ela pode morar em qualquer um, assim como a maldade, que não tem religião, e nem feição, ela apenas precisa de um corpo para existir.

Não há povo bom ou ruim, e sim indivíduos, e eles estão todos misturados, em todas as nações. 

Muitos de meus conceitos pré-estabelecidos foram desmoronados, e os mais fixos, foram lapidados, e alguns transformados.

Poucos conseguem enxergar, o ser humano sem o rótulo, ou pelo grupo que pertence, porque a sociedade, sempre cria padrões, que se enraízam em nossas mentes, sem notarmos.

E quando você consegue se desprender disso, você começa a abraçar novas idéias, e saber apreciar o lado bom do diferente, que até ontem era estranho, e que amanha, talvez, será seu novo modo de ver as coisas.

E passei a ver, que ambos, Ocidente e Oriente, possuem defeitos e qualidades, erros e acertos, e que apenas, enfatizando as similaridades, e com a humildade de admitir a própria imperfeição, é que vamos caminhar juntos, rumo à evolução.

Cada ser humano deve saber apreciar, admirar, e aprender. Partindo do princípio de que os rótulos já definidos, devem ser abandonados, para serem reavaliados, com um único propósito: o compromisso com a verdade. E mesmo assim reconhecendo a possibilidade de estarmos novamente enganados.

Pois a certeza é tão perigosa quanto a dúvida. A dúvida nos faz questionar, e a certeza nos faz ficar no mesmo lugar, todo o tempo. Porém, o mais belo se possível, é a certeza após a dúvida, e questionar, é a chave de muitas respostas, mas nunca de todas elas.

E foi na diversidade do Líbano, que pude ver, com uma outra perspectiva, muito do que trazia comigo, e passei a observar como as diferenças são belas, necessárias, e podem se completar.

Caminhando pelo Centro de Beirute, baseado e construído sobre a influência de Paris, onde estão presentes as melhores marcas do mundo, ouvindo os sinos da igreja e o chamamento da oração na mesquita do século XI, eu sentei e pedi um café, onde o garçom, que falava três línguas, tentava adivinhar de que país eu era. Mais tarde fui caminhar no calçadão da praia, onde num desfile de diversidade, caminhavam mulheres todas cobertas, e outras semi-nuas, e eu me questionava, afinal o que é a liberdade? 

Continuei minha caminhada, tranquilamente, até que dezenas de motocicletas passaram nas ruas, eram jovens felizes, gritando e buzinando, pude ver que alguns deles vestiam camisetas de bandas de rock, outras do Hezbollah e até “I love New York” estampada na camiseta de um deles. Apesar disso todos estavam segurando a mesma bandeira, não era a do Líbano, e sim a do Brasil. Era época de Copa do Mundo. Eu não sabia, mas futebol lá é sagrado, quase tanto quanto a religião. 

Eu me emocionei, pois ver a bandeira do Brasil, ser levantada e sacudida, perto do mar mediterrâneo, trouxe uma sensação inesquecível.

Porém esse sentimento e meu pensamento foram interrompidos por dois senhores, que estavam se questionando: Será que neste ano haverá guerra?

A resposta era sim, e esses foram apenas alguns momentos de um dia no Líbano, pouco antes da guerra de 2006.

Hoje no final de 2013, no Brasil, sinto muita falta do Líbano, e assim como eu, essa é a vida daqueles que vão e vem, sempre levando e trazendo coisas consigo, da cultura , da religião, da tradição, e dos pensamentos, além da saudade que sempre existirá.


Chadia Kobeissi
Gazeta de Beirute
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About beirut lebanon

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2 comments:

  1. Prima Chadia Kobeissi

    Emocionante o teu depoimento.
    Nos faz meditar sobre nossas ''verdades''.
    Aproveitei e fiz uma viagem no tempo.
    Me fez lembrar a memória de meu avô paterno, que veio de Alma Zgharta em 1883 e morreu no interior do Espírito Santo em 1932

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  2. Obrigada, que bom que gostou...fico mto feliz!!!

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