Entrevista com NaimaYazbek

Foto: Naima Yazbek

Nascida em São Paulo, em 1º de maio de 1971, Fernanda Yazbek Pereira, bisneta de libaneses, portugueses e espanhóis, Naima Yazbek é artista, dançarina e cantora brasileira, considerada ícone na divulgação da arte brasileira e oriental no Líbano. Formada em Psicologia, assumiu a arte da dança, canto e performance como seu modo de vida.

Fernanda escolheu o pseudônimo Naima quando trabalhou na Espanha, em 2005. Para os espanhóis, o nome Fernanda soava estranho, pois só existia na versão masculina. Como fazia apresentações de Dança do Ventre, ela Fernanda recorreu a nomes árabes e optou por se chamar Naima. Ela conta que, na verdade, existem quase 10 razões pelas quais escolheu este nome; uma delas é que desejou homenagear a falecida dançarina, atriz e cantora da era dourada do cinema egípcio, Naima Akef. 

Confira, abaixo, a entrevista que a Gazeta de Beirute fez com NaimaYasbek, uma pessoa sensível, carinhosa, muito simpática,educada, trabalhadora e linda. 

GB: Como você iniciou sua carreira?

NY: Desde pequena, gosto de dançar, cantar e atuar, mas, além de ser muito tímida, eu achava que não tinha o direito de ser artista, pois minha educação e a sociedade veriam isso como um hobby e não como uma profissão bem remunerada no Brasil. Eu não tinha coragem de assumir meu sonho como algo profissional. 

Desde bem pequena comecei a dançar. Entrei na Dança Moderna com seis anos de idade. Depois, fiz Balé Clássico e Jazz, que disputavam meu tempo com as aulas de natação e inglês. Quando entrei na faculdade, comecei a jogar Capoeira e um novo mundo se abriu, inspirado pelos movimentos de flexibilidade da roda de Capoeira.   Isso me ajudou muito em minha filosofia e atitude de vida e também a me projetar mais e ser menos tímida. Fiz Capoeira por 14 anos e cheguei até a ensinar a arte para crianças carentes por cinco anos. O tema da minha tese final de faculdade de Psicologia foi a Capoeira como instrumento terapêutico. 

Durante esse período, me interessei por Dança Afro-Contemporânea e, com o grupo de Capoeira, passei a pesquisar sobre as muitas danças folclóricas oriundas de diferentes regiões do Brasil. Cheguei a viajar para documentar e aprender algumas delas – principalmente as danças do Nordeste e as do Centro-Oeste do Brasil.

Comecei a praticar a Dança Oriental (ou a Dança do Ventre) despretensiosamente em 1996, fazendo aulas particulares. Assim que completei seis meses de aula, fiz uma apresentação que me impulsionou a me interessar e a me apresentar cada vez mais. No quinto ano de prática de Dança do Ventre, fui convidada a participar de um projeto na Alemanha, representando o Brasil, ao lado de capoeiristas. Nesse projeto, fiz uma performance de Dança Oriental com teatro, representando as mulheres árabes. Viajei por dois meses, em turnê, com este projeto. Realizei quase 40 workshops e, a partir daí, passei a considerar a dança minha profissão.

Depois da Alemanha, fui para Londres, na Inglaterra, para me apresentar, e cheguei a morar em Barcelona, na Espanha, onde me apresentei por diversas vezes.

Sempre que retornava ao Brasil, eu dava aulas de dança. Passei a trabalhar como coreógrafa no Clube Atlético Monte Líbano, em São Paulo, produzindo shows de Dança Oriental. 

Aqui no Líbano, faço parte do show "Pure Oriental", no teatro Metro Al Madina, onde vi começar muita agitação cultural. Como moro no Hamra, em Beirute, acompanhei desde a construção até a abertura do teatro. Fico muito feliz por fazer um show puramente oriental, para um público amante dessa arte. Isso é uma grande oportunidade de liberdade de expressão, pois, infelizmente, só encontramos hoje shows de Dança Oriental em alguns restaurantes ou cabarés – o que os dá uma conotação vulgar, sendo que a dançarina é exposta somente para o entretenimento, não de maneira sexual. 

A música aconteceu de forma paralela. Fiz diversos cursos na Universidade Livre de Música Tom Jobim (antiga ULM Brooklin), em São Paulo, mas não cheguei a me formar em Canto Popular por causa das constantes viagens que eu tinha que fazer. Acabou faltando algumas matérias teóricas para que eu concluísse o curso. Mas, tanto lá quanto no Sesc Anchieta, participei de espetáculos e práticas de banda com diversos músicos e compositores, dando início à minha experiência como cantora. 

GB: O que lhe trouxe ao Líbano?

NY: O interesse pelas minhas raízes, pelos meus antepassados e também pela língua e pela cultura, que despertou assim que comecei a praticar Dança Oriental. Eu já havia iniciado alguns cursos da língua árabe clássica e popular, anos antes, no Brasil, e já estava cantando algumas canções árabes, mesmo sem saber o significado das letras. 

GB: Há quanto tempo você está no Líbano?

NY: Há quase quatro anos e meio.

GB: Como é viver no Líbano? Quais as dificuldades e facilidades que você encontrou para o seu trabalho e vida social aqui?

NY: Dificuldades eu encontrei somente na diferença de mentalidade das pessoas, principalmente dos homens, pelo fato de eu ser dançarina e artista. Infelizmente, mesmo que eu seja respeitada por muitos que conhecem o meu trabalho, a categoria no geral não é respeitada. Issofica claro quando vemos as condições de trabalho dos artistas como, por exemplo, a lei que obriga as dançarinas estrangeiras a fazerem exames de sangue a cada três meses (pagando um preço muito alto por isso). Outro exemplo é a maneira com que a sociedade vê a Dança Oriental, que é adorada, mas muitas vezes é julgada como vulgar e associada à prostituição. Como a prostituição é ilegal, muita gente categoriza as dançarinas como prostitutas, como se uma coisa fosse sinônima da outra. 

Minha grande facilidade foi por ter como profissão algo que muitas libanesas não teriam. Por ser brasileira e não ver problemas nisso, tenho a mente mais aberta e sei o que eu quero da minha dança, meu canto, minha arte. Não tenho nenhum pudor e, por isso, sou pioneira em algumas coisas aqui. 

GB: Como é o seu trabalho no Líbano?

NY: Como eu disse, faço coisas diferentes e não vivo de uma só arte. Trabalho com a Dança Oriental, dando aulas e me apresentando, faço shows de Samba e também sou vocalista da Banda Xango, além de participar como convidada de outros trabalhos

GB: Quais danças você interpreta?

NY: Além da Dança Oriental e de algumas danças folclóricas árabes, danço Samba, Capoeira e danças folclóricas brasileiras como o Frevo, o Maracatu, Baião, a Lambada, o Forró etc. Com o Grupo Bailando fiz algumas outras danças como Salsa, Dança Mexicana e Flamenco. Já fiz outras danças em diversos Zaffes e casamentos e até já aprendi a Dança Armênia.

Foto: NaimaYazbek

GB: Você dá aulas de dança?

NY: Sim, dou aulas de Dança Oriental e, eventualmente, realizo workshops de Samba e danças brasileiras. Tive a oportunidade e o prazer de ministrar workshops de danças brasileiras no Centro Cultural Brasil Líbano, que foram eventos muito interessantes e divertidos, que combinavam festa com manifestação cultural, como geralmente é no Brasil. Fizemos carnaval, festa junina, entre outros.

GB: Em relação aos seus trajes de sambista e de Dança do Ventre, você os confecciona no Líbano mesmo ou você jáos trouxe prontos do Brasil?

NY: Os de Dança do Ventre eu trouxe do Brasil e do Egito, além dos que eu mesma confeccionei, com a ajuda de costureiras e bordadeiras. Comprei os de Samba no Brasil e fiz a montagem e o acabamento aqui. Mas, muitas vezes, sambo com roupas dos grupos que me contratam, que possuem trajes maiores e mais luxuosos que os meus.

GB: Que tipo de músicas você canta?

NY:Aqui no Líbano, acabei focando naturalmente num repertório de músicas populares brasileiras, como Bossa Nova, Samba e outros ritmos. Não me interessa tocar músicas simplesmente conhecidas, de apelo comercial ou somente porque são famosas. Gosto de músicas que tenham melodia, ritmo atraente ou que representam a cultura e a beleza da música brasileira. Tive o privilégio de conhecer e trabalhar com o músico e compositor Ziad Rahbani, que eventualmente me convida a cantar algumas músicas brasileiras de autoria de compositores como Tom Jobim, Astrud Gilberto e Baden Powell, por exemplo, além de poder ter, vez ou outra, participado de um coral cantado, em árabe (mesmo com o meu sotaque), músicas de sua autoria ou músicas que sua mãe Fairouz gravou. 

GB: Conte sobre suas apresentações com ZiadRahbani.Como você o conheceu? Como é trabalhar com ele? 

NY: Conheci ZiadRahbani no Resto Pub Razz, um local onde vários músicos muito bons se apresentam. Na ocasião, Ziad deveria ter ido porque gosta de música brasileira. Ele foi assistir à nossa banda Xango, há a pouco mais de um ano. Depois de um mês ou dois, ele entrou em contato comigo e com Adel Minkara, o guitarrista da banda. Ele queria adicionar algumas músicas de compositores brasileiros como Tom Jobim e Astrud Gilberto, ao repertório de seu show. Mesmo já tendo feito versões em árabe dessas músicas, que ele mesmo gravou na voz de outras pessoas, inclusive sua mãe, Fairouz. 

Começamos a trabalhar numa temporada de ensaios e shows há um ano, quando me apresentei com ele em diversos shows. Hoje ainda me apresento com ele e com a banda no Razz Resto pub ou onde ele eventualmente se apresenta, quando o repertório permite. 

Trabalhar com ele é muito emocionante! Temos momentos inesquecíveis no palco. O fato de ele ser muito famoso faz com que eu me sinta muito mais exposta. Estar em um show com ele, seja pequeno ou grande, faz com que algumas pessoas me reconheçam. Notícias no jornal podem sair no dia seguinte, o show pode receber elogios e críticas, ou seja, fico sempre na mira das pessoas.

Aprendi muito com Ziad. Além da presença e da obra dele que estou,cada vez mais, conhecendo e admirando, aprendi muito pelo fato de ele me deixar improvisaralgumas vezes e me fazer sentir confortável, como se ele desse valor ao meu estilo, seja lá qual for. Muitas vezes estou no show dele, junto de outros músicos e cantores mais experientes que eu e, mesmo assim, ele me faz sentir que estou lá para dizer algo. Isso é muito importante para a minha formação como cantora solista. Trabalhar com ZiadRahbani é muito gratificante – assim como a convivência com os ótimos músicos da Banda Xango, com a qual eu faço shows em que danço e canto por duas horas seguidas. Tudo isso tem sido um grande aprendizado, um grande prazer e uma grande realização. 

GB: O que você mais gosta de fazer? Cantar, dançar ou dar aulas?

NY: Gosto de me apresentar, seja cantando ou dançando. Quando canto, se o contexto e o ritmo permitem, estou sempre dançando – mesmo nos momentos de solo instrumentais que a banda realiza durante as apresentações.

GB: Conte-nos um pouco sobre os seus shows solo, os shows com a Banda Xango, o Segundo Bloco e a sua relação com esses grupos.

NY: A Banda Xango surgiu, como este nome, em junho do ano passado. Quem a criou foi o guitarrista AdelMinkara, que é libanês de origem, mas tem familiaresbrasileiros e viveu no Brasil – onde estudou e conviveu com a música e a sonoridade típicas. Antes de eu começar a me apresentar com a banda, já havíamos tocado juntos algumas vezes, desde que nos conhecemos em 2010. Na época, a Embaixada do Brasil nos pediu que elaborássemos uma apresentação pública nas cidades de Ghazi (Bekaa) – onde havia em torno de 400 pessoas da comunidade -, em Byblos e no centro de Beirute, para divulgar um pouco da cultura brasileira. Foi aí que começamos um trabalho juntos e fomos agregando outros músicos que gostavam da musica brasileira para fazer parte do que é hoje a Banda Xango.

Sobre o grupo Segundo Bloco, temos uma amizade e uma parceria já há algum tempo. Conheci a dançarina, o percussionista e a professora de Capoeira, Roberta Meirelles (Chapinha), há quatro anos em apresentações do grupo Bailando. Mais tarde, a Roberta, o Kevin Safadi, seu irmão Gabriel Santana, e alguns alunos assessorados por NassibelKhoury criaram o Segundo Bloco. Eventualmente, sou convidada a me apresentar como dançarina ou como cantora com o grupo de percussão. Algumas vezes, a Banda Xango e o Segundo Bloco se apresentam juntos, unindo 16 músicos, das duas bandas. 

GB: Você tem algum apoio ou patrocínio?

NY: A minha patrocinadora, para a parte contratual, desde que comecei a trabalhar com visto de dançarina/artista no Líbano, tem sido a Rania Kazan, do grupo de Zaffe e entretenimento Bailando. Fui apresentada a ela há mais de quatro anos, pelo professor e escritor brasileiro Roberto Khatlab. Sempre estou participando desse grupo e, no estúdio dele, tive o espaço físico para dar aula e treinamentos. 

Tenho muitos amigos e parceiros que me ajudam, como também o Resto Pub Razz, em Clemenceau, o Teatro Metro Al Madina, em Hamra, a Nova Club SinelFil e o Centro Cultural Brasil-Líbano, onde sempre me apresento e tenho espaço e apoio para os ensaios.

GB: Qual foi a sua melhor interpretação, seja na dança ou no canto?

NY: Não sei especificar uma única. Tudo depende do dia, da plateia, de muitas coisas. Mas tive momentos memoráveis, como por exemplo as participações em shows com duas ou três mil pessoas, como foi no Cairo Jazz Festival, do qual participei junto aZiadRahbani, em maço deste ano. Não considero essa a minha melhor interpretação, mas foi muito emocionante – simplesmente por estar ali, naquele evento e em plena revolução.

GB: Qual é o seu melhor público? Fale de todos os seus públicos.

NY: Adoro todos os públicos, desde os que assistem à noite “Pure Oriental”, no teatro Metro Al Madina, à plateia da banda Xango, que vai para escutar algo diferente ou porque já gosta bastante de musica brasileira. Gosto muito do público de casamentos, que nos olha com curiosidade e exotismo quando entramos com os noivos. Todos são bem vindos, até o mais critico. Nós só aprendemos interagindo com o público e com o carinho que ele nos dá. 

GB: Quais são os seus planos para o futuro?

NY: Por enquanto, pretendo seguir no Líbano e continuar divulgando a cultura brasileira com a música e a dança. Além da promessa de sempre cultivar e expandir a Dança Oriental de maneira artística, mostrando às mulheres libanesas e árabes que a dança que faz parte da cultura delas deve ser mais valorizada.Todos a adoram, mas a tratam mal. A Dança precisa ser mais “glamourizada” e respeitada por aqui.


Por Carla Mussallam Al Masri
GazetadeBeirute  
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