Os refugiados sírios no Líbano

Foto: Ya libnan
O número de refugiados sírios registrados no Líbano já chega a dois milhões (o equivalente a 25% da população libanesa). O número real de refugiados é muito maior, já que muitos sírios entram no país ilegalmente e não são contabilizados.

Entre os refugiados, há 45 mil palestinos que viviam na Síria, e 500 mil crianças. A maioria vive em Trípoli e no Bekaa. Os refugiados estão divididos entre os que apoiam o regime sírio (e vivem em áreas ao redor do Partido 8 de Março, do Hezbollah) e os opositores ao regime (que vivem em áreas ao redor do Partido 14 de Março, do Mostaqbal-Movimento Futuro). 

No Líbano, a maioria dos refugiados não vivem em abrigos ou campos destinados a eles, como costuma acontecer em outros países. Grande parte dos refugiados vive com parentes, em casas alugadas ou em residências de pessoas solidárias. Um dos problemas desta situação é o livre trânsito de sírios armados, por exemplo. Somente nesta semana, 39 refugiados foram detidos por porte ilegal de armas. Não há como impedir a circulação dessas pessoas, já que elas não vivem sob vigilância, em campos de refugiados. 

Outro problema para o país é o fato dos sírios trabalharem no Líbano, com mão de obra mais baixa que o normal – o que deixa muitos libaneses desempregados. Enquanto os libaneses dependem de seus salários para viver, os sírios recebem roupas, alimentos, ajuda médica e hospitalar, ensino gratuito para os filhos etc. Tudo isso faz com que os empregadores vejam vantagem em contratar os refugiados, já que eles aceitam trabalhar por um salário abaixo do comum (sendo que os salários dos libaneses já são baixos – e o custo de vida, elevado)

Akkar, por exemplo, é uma cidade muito pobre e carente. Os moradores de Akkar foram os primeiros a acolher os refugiados, abrindo suas casas para recebê-los. Hoje,os mesmos moradores pedem a retirada dos refugiados da cidade, recorrendo até à televisão para fazer um apelo ao governo.Este ano, os moradores de Akkar não conseguiram trabalhar ou fazer o armazenamento de inverno, durante as estações de colheita (que são esperadas durante o ano todo), porque os sírios foram contratados em seus lugares, pela metade do custo. Isso causou revolta entre os cidadãos que, além de sofrerem com a carência e a falta de recursos da cidade, agora também estão sendo obrigados a sofrer com o desemprego. 

Outro exemplo do que vem acontecendo com o excesso de refugiados é a compra de pequenos ônibus (vans) de transporte coletivo por sírios que não possuem habilitação de motorista e trabalham com um custo mais baixo, colocando em risco a vida de muitos cidadãos libaneses. 

O Líbano é um país pequeno e, hoje, abriga um número muito grande de refugiados, sem ter condições para oferecer vida digna aos próprios libaneses. 

Desde que os refugiados começaram a entrar no país, o Presidente da República e outros políticos têm viajado incessantemente para outros países árabes a fim de pedir ajuda financeira para acolher os refugiados. Somente o Qatar já doou 70 milhões de dólares, mas não se sabe o que foi feito com esse dinheiro. Enquanto os políticos estão preocupados em arrecadar ajuda para os refugiados,o povo libanês sofre com o desemprego, com a fome, com o frio. 

A situação na área da saúde também é muito preocupante, quando por exemplo, um cidadão pobre fica doente e morre esperando para ser atendido, na porta de algum hospital público. Já um refugiado entra em qualquer hospital e recebe atendimento totalmente gratuito. Se o cidadão não tem dinheiro para pagar escola para seus filhos, ele acaba os deixando sem ensino 

– o que, muitas vezes, gera trabalho infantil ou crianças largadas nas ruas, pedindo esmolas. No Líbano,não existe escola gratuita: as escolas públicas cobram uma taxa mínima,que varia entre 350 e 500 dólares, dependendo do grau de ensino. Mas, para as crianças refugiadas não ficarem sem estudo, o governo libanês reformou três escolas antigas,que não estavam em funcionamento, e as reabriu para receber as crianças sírias. Professores e outros profissionais de ensino são pagos pelo governo para educar refugiados, enquanto milhares de crianças libanesas estão nas ruas. 

A prioridade deveria ser o cidadão libanês,que constitui o povo desse país, que votou para que os políticos e ministros ocupassem suas cadeiras. Sem o povo libanês, não haveria um país tão maravilhoso, que muitos já tentaram destruir e não conseguiram (graças à força e a bravura dessa gente, que merece respeito e uma vida digna). Fica, portanto, o recado para o premiê NajibMikati, para o Ministro da Saúde, Ali Hassan Khalil, e para o Ministro da Educação, Hassan Dyab: antes de se preocuparem tanto em obter recursos para abrigar refugiados, pensem em acolher e ajudar o seu povo, pois, se não fosse por ele, vocês não estariam em seus cargos. 


Therese Mourad
Gazeta de Beirute
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