UM BRASILEIRO, DESCENDENTE DE LIBANESES, NO LÍBANO



Saio de Beirute em direção ao sul. Enfrento um grande engarrafamento próximo ao Estádio. Depois de passar pelo estádio e pelo aeroporto internacional , tomo a estrada em direção a Damour. Os letreiros à direita convidam para sair da dieta e “abusar” dos deliciosos doces libaneses. Paro o carro e me entrego aos prazeres trazidos pelo aroma da água de rosas e da água de flor de laranjeira . Depois de me saciar, para amenizar bebo num só gole um copo de suco de limão. No estacionamento, o peso na consciência é bem maior do que o peso do estômago. Mas o que está feito, está feito. Valeu o exagero! Estou satisfeito. De volta à estrada, começo a admirar as grandes plantações de bananas que acompanham a estrada, lado a lado, na beira do mar. A brisa que sopra do Mediterrâneo me alegra e me alivia. Uma grande sensação de liberdade me envolve. Não acelero, Diminuo a velocidade para que esta sensação dure por muito tempo. Mas Damour está perto. Tenho que prestar atenção na estrada porque daqui a pouco será a saída para Kfar Katra. Um pouco mais à frente, uma pequena entrada à direita. Faço a volta, cruzo a estrada principal e, de repente, é como se tivesse mudado de mundo. O grande tráfego de veículos ficou para trás. Começo a subir. A paisagem muda. Novos sentimentos começam a percorrer minhas veias e se misturam ao meu sangue. A pressão aumenta aos poucos e o coração recebe a primeira mistura do sangue misturado às novas sensações que a subida da montanha me proporciona. Como é belo este Líbano que vejo agora, distante das disputas políticas e religiosas, este Líbano que habita meu coração desde a infância naquela pequena cidade de Palma, no interior de Minas Gerais, no distante Brasil. Lá onde a minha “sito” Málaqui , meu tio Elias e o primo Salomão contavam as mais belas e emocionantes histórias daquela terra que eles traziam no coração e que mais me parecia um conto das Mil e Uma Noites! Aquela Palma , onde os Auad de misturavam com os Cardoso, os Metre se mesclavam aos Paula, aos Pinto, os Mansur se juntavam aos Pereira, os Hassan Abdalla de uniam aos Alvim e Amaral. Aquela Palma , onde os Daher eram também os Souza, os Maalouf se transformavam em Maluf e passavam a ser também Freitas. E os Nacif, Simão, Saab, Mounzer/Mender/Menzer... Vou subindo a montanha e os pensamentos também se misturam. E me lembro das histórias da amada Málaqui, das casas de pedra, dos doces de figo, dos sacos de labne pendurados nas torneiras ou nos galhos das árvores, do maacrum do dia de Reis, do maaamul na festa de páscoa, do doce “ya rajewti” com que elas nos brindava a cada visita que fazíamos, na esperança de ganhar um docinho, uma muraba, um “doce de funil”, um prato cheio de shishbarak... O carro sobe lentamente contrariando os pensamentos que vêm numa velocidade estonteante. Eis que surge, bela e radiante, Deir el Kamar. É aqui que eu pensava que a lua vinha se esconder depois de iluminar a noite do céu de Palma. Os telhados vermelhos e as flores dos jardins que ladeiam a estrada enriquecem a bela paisagem. Mas, rapidamente, cruzo a cidade e uma estrada mais estreita aperta um pouco mais o coração que teima em explodir e fugir do meu peito, tamanha a emoção que se aproxima e que ele pressente. Uma curva lá no alto e eis que surge A ALDEIA DA MINHA AVÓ. Como em Palma, a torre da igreja se destaca. Mas o sentimento que brota junto com o cheiro das frutas é muito grande. É descomunal! Tenho que fechar a boca para o coração não fugir. Foi daqui que eu vim. É daqui minha origem. Veio daqui minha alma (estou certo disso). Kfar katra. Maalouf e Mounzer. Somente. Nada mais é necessário. Está aí o princípio Deixo o carro parado na beirada da estrada e saio para respirar o ar de Kfar katra, o ar da vida, o ar que infla a felicidade. Lá do outro lado está Rechmaiya. Do lado de cá, um belo paredão de pedra. Chego na beira do precicípio e por pouco não tenho a sensação de que possuo asas e posso voar. Se pudesse, daria um vôo pelas montanhas do Chouf, veria de cima as belezas do Monte Líbano e desceria outra vez em Kfar katra. Desta vez para ficar. Mas estou aqui, pela primeira vez, logo depois da entrada da aldeia. Deixo o carro e percorro a pé o restante da estrada que leva ao centro da aldeia. Um forte cheiro de doce de figo perfuma o ar. Nas beiradas das calçadas, galhos de árvores pendem para fora, cheios de frutas; uvas, figos, maçâs, peras... e as pedras das casas. Exatamente como Málaqui descrevia. Mesmo tendo passado pelos horrores da guerra, Kfar katra mantém o encanto do início do século passado, quando, em 1914, Málaque teve que abandonar pai e mãe, teve que deixar sua pátria e, num navio, cruzar o Mediterrâneo e o Atlántico para sobreviver em outras terras. Nunca mais viu pai e mãe. Nunca mais sentiu o perfume das montanhas do Chouf. Jamais voltou à sua bela Beirute. Nunca seu pai e sua mãe, nunca seu irmão Wadih, nunca sua igreja e seus costumes, nunca sua terra natal. Nunca. Nunca. Nunca. E o que estou fazendo aqui? Estou resgatando a história de Málaqui. Estou a voltar a Kfar Katra 100 anos depois. Aqui , de onde saíram Málaque, José, João, Salim e Wadih. Aqui, para onde voltou Wadih, sozinho , sem os irmãos, e constituiu família. Aqui , onde Wadih e Helena viveram e deram vida a Philippe, Salma, Adlete, Assaad e Adib. Aqui, onde hoje vivem Adib e Adma, Assaad e Souad e os descendentes de Wadih. Aqui onde vivem os descendentes do velho Khalil Metre Maalouf . Aqui , de onde saíram para o mundo, quase numa “ diáspora familiar” , os descendentes de Wadih. Aqui, onde me encontro e me perco. Aqui estou. Não há mais a igreja com o grande sino das histórias de minha avó. Já não há mais a placa que dizia que “ oferta de Khalil Metre Maalouf”. Não há mais Málaqui, nem Wadih, nem Helena. Mas permanece a história nas pedras das casas, na água de corre nas fontes, no ar que refresca as montanhas, no carinho fraternal que exala dos apertos de mão e dos abraços calorosos. Kfar Katra devolveu-me a alegria. Kfar Katra cativou e aprisionou minha alma. E eu não estou certo se quero libertá-la.


Por: José Alberto Metri Pinto
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